Querida Laura, Hoje a nossa história começou. Em algum lugar você já existe em mim. Sabemos que o tempo é uma invenção empírica do homem e são pelos espelhos gastos desse mesmo tempo que te assisto, com seus grandes olhos curiosos, debruçada na janela do mundo. Você sorri. Acho que é pra mim. Seja sempre bem-vinda. Tenho 26 anos e sei muito pouco. Mas o que sei, ensino. O egoísmo mais feio que existe é saber e deixar embolorar. O que souber, ensine, Laura. Esta é, talvez, a primeira lição, ainda que não a mais importante. A sua mãe é tímida e quieta. Fala doses cavalares de besteira. Enquanto conversa com alguém, percorre todo o espaço-tempo doze vezes, depois aterriza e sorri. Mas entende. Entender alguém é sobre a verdadeira atenção, que vai além do repetir palavras e continuar os diálogos. Tem um pouco a ver com querer. E muito com colocar o centro do universo no lugar certo, que, por coincidência, não é o seu umbigo. Nem o de ninguém. Esse mundo é urgente. Que bom. Não dá pra deixar nada pra amanhã mesmo. Inclusive as coisas que você mais quer. E não falo só dos sonhos pois não é prático ser tão genérica assim. Na minha frente, agora, vejo seis planilhas abertas, cheias de números e contratos e prazos. Que ótimo ter um trabalho, produzir, ter dinheiro. Você vai aprender que colaborar faz parte de ser uma pessoa boa, também. Mas querida, lembre-se de respirar. Lembre-se de visitar os seus avós e amigos. Lembre-se de chegar em casa e ouvir um disco inteiro por puro prazer. Lembre-se de ir ao seu restaurante favorito quando tiver vontade. E, acima de tudo, tenha vontade. Essa urgência vai comer pedaços preciosos da sua história se você permitir. É a antropofagia mais triste do mundo, não vamos deixar acontecer com ninguém. Conto com você, Laura. Filhinha, sabe de uma coisa? Hoje estou triste. Às vezes o peso do mundo debruça em nossos ombros em forma de dúvida e nem ao menos sabemos por onde começar. Que crueldade. Quero te dizer algo: você não é a sua profissão. No meu diploma diz: Bacharel em Física, mas dentro de mim, sou cientista só um tantinho. E eu me sinto muitas coisas além disso: professora, neta, filósofa, bailarina. Torcedora do corinthians. Meio engenheira. Fã da Florbela Espanca. Encorajadora da arte. E astronauta um dia, se tudo der certo. O importante é ser feliz, olha só que clichê. E ser feliz é poder ser tudo o que você é. Se essa história de genética tiver fundamento mesmo, a sua curiosidade nunca vai morrer. E por causa disso, você será muitas. Lembre-se disso Laura: você não é a sua profissão. Seu valor não é o seu salário. Se estiver insatisfeita, mude. Se não estiver aprendendo nada, mude. Sempre sempre sempre existirão outros caminhos. Tenha paciência para começar tudo outra vez. E desfrute a jornada de volta, apesar dos idiotas. Saiba que nunca cruzei as fronteiras do meu país, mas todos os dias, atravesso com coragem as do meu próprio pensamento, aquela linha do pensar e imaginar. Em dias de chuva e inquietação, vou além, eu as destruo com a maior delicadeza do mundo. Sei que, juntas, vamos romper ainda em grandes aventuras, dos mais variados tipos. Mas se eu não estiver aqui pra te acompanhar, eu te peço, vá. Queria te deixar de presente o céu que vejo todas as noites, mesmo sabendo que é quase certo que você o veja menos. A mania de luz, que cega, só tende a aumentar. Olhe com atenção e não deixe o espanto morrer nunca. Se abrir a cortina da escuridão vai encontrar o segredo de tudo, a ciência e a poesia de mãos dadas e Deus cochichando coisas bonitas. Se a cortina não abrir, olhe pelas frestas. A verdade porém, é uma só: que sei apontar as estrelas e nomeá-las cientificamente, mas ainda prendo, no céu da minha boca, as minhas desculpas, necessárias e ausentes. E por isso, Laura, eu te peço perdão pelo que eu talvez não fale mesmo querendo muito. Eu sei que é um pouco de covardia, assim, com a distância do tempo nos separando. Me perdoe e me entenda. Você vai conhecer tanta gente por aí, Laura, espero que sim. Pessoas são estranhas e maravilhosas. Não tenha medo delas. Se for pra ter, que seja só um pouquinho. Ter interesse por gente dos mais variados tipos, cores, credos e corações é o que de melhor se pode fazer para colher sabedoria.
Meu papel aqui é o de te dizer pra eleger com cautela aqueles que estarão ao seu redor, mas acho tudo isso perda de tempo e de vida. As pessoas certas não existem. Todas as pessoas são as certas, porque você as escolheu. Você verá que todos temos um lado bom e um monstro devorador, precisamos apenas saber domá-los. Sim, os dois.
Além das pessoas, temos como cohabitantes neste planeta, por enquanto, os seguintes seres vivos: árvores, flores, oceanos, animais e livros. Trate-os com a reverência que merecem. Eu te abençoo também, Laura, com a liberdade para acreditar em tudo o que quiser. Não se esqueça disso nunca. A razão, sozinha, é entediante.
Que quando na juventude estiveres reunida com teus amigos, naqueles momentos simples que fazem as melhores lembranças, saibas falar sobre coisas diferentes de "empresa" e o último vinho importado que experimentou. E que das viagens, traga mais memórias do que compras. Que um dia você fracasse e se frustre. Que sofra por amor. Que queira muito algo e não consiga. Que erre por imaturidade. Isso é estar viva, Laura. Machuca, mas vale a pena. Na pior das hipóteses, uma cicatriz é também uma boa história pra contar. Que respeite as dores enfiadas a força por entre as tuas artérias, nunca sabemos qual é aquela que estanca a correnteza iminente de sangue morno, que tornaria tudo mais chato. Que experimente dançar sozinha na calçada em madrugadas tristes, como nos filmes dos anos 50. Que sempre pense em alguém que ama muito antes de dormir. Que prefira as perguntas e que, de vez em quando, esqueça o guarda-chuva. É a minha oração, Laura, querida. Com todo o amor do mundo, _Coeur de Pirate - "Cap diamant"
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